O Treinador moderno em plena actuação xadrezística
3ª Parte
«Postas as coisas nestes termos, o GM Treinador Miguel Roriz de Vasconcelos e Sá, normas e curso de Treinador tirado nos States, Academia de Xadrez de Alguidares de Baixo, entendeu que a única solução era avançar a direito, prosseguindo o caminho até agora trilhado, mas ainda com mais força e convicção. Por certo, que aquilo que tinha aprendido nos States e que estava escrito em muitos livros, não podia estar errado – isto era uma evidência. Assim sendo, a culpa, quer quisessem, quer não, só podia ser dos jogadores.
Tomou pois a inovadora medida, única à face do planeta, de retirar um jogador para fazer entrar na equipa o psicólogo. Claro que este não jogava (um psicólogo só pensa e assim perdia sempre por tempo). Lá gastou mais uns dois mil contos em aulas para o dito licenciado, porque este nunca se tinha sentado em frente a um tabuleiro na sua vida e, por isso, não sabia jogar. De qualquer forma, ele só foi a duas aulas (e a primeira foi apenas de apresentação), porque depois, aborreceu-se a valer, quando soube que tinha de atravessar o Tejo num barco e de cabeça para baixo, molhando os cabelos, antes do início de cada jogo, para criar “pulmão” prás grandes contendas que se avizinhavam, até porque não sabia nadar. Daqui resultou mais uma despesa adicional, esta de pequena monta, que consistiu na aquisição duma bóia, não se desse o caso do barco virar e o ilustre psicólogo morrer afogado, ainda mais sem seguro, porque nesta altura, já nenhuma Companhia Seguradora queria correr esse risco.
Desta forma a equipa apresentou-se nas diferentes provas com um jogador a menos e um psicólogo a mais. Como se o esforço já não fosse grande, ainda tinham que aguentar com um pendura, (cinco no carro) que não parava de enunciar lances e mais lances, sempre com mate em três. Mas o que mais custava aos pobres jogadores, era aturar os supostos incentivos numa linguagem que mal decifravam, porque não era inglês, nem português, mas antes uma mistura horrível de ambas. É óbvio, que isto só aconteceu até metade do campeonato, altura em que, sem que alguém se apercebesse, os desgraçados começaram a usar tampões nos ouvidos.
O pobre Conde, esse, já nem queria ouvir falar mais no campeonato. E, a pretexto dum negócio qualquer (a verdade é que ele não queria ficar definitivamente xoné), rumou ao estrangeiro. Qualquer país lhe servia, desde que a língua que lá se falasse não fosse o inglês.
Foi desta forma que conseguiu evitar a humilhação de verificar, que pela primeira vez na vida do seu querido Clube, se tinha quedado pelo nono lugar da classificação geral, apenas dois lugares à frente do último.
Mas foi também por essa razão, que não assistiu, logo após o termo da penúltima jornada e na preparação que faziam no Tejo (criar pulmão) antes de iniciarem a jornada a uma manobra curiosíssima, muito bem disfarçada por todos os jogadores, que, como quem não quer a coisa, fizeram virar o barco, donde resultou o dito psicólogo ter caído à água, quase ter morrido afogado e ter dado entrada no Hospital de Vila Franca de Xira com uma fortíssima gripe. Certamente que o velho Conde, da estirpe dos Castel – Branco, teria rejubilado com a situação. Em contrapartida, ficaria triste por saber que a candidatura às competições internacionais era impossível, dado o mau desempenho nas provas nacionais.
Quanto aos resultados de Tesouraria e apesar de tudo, não foram bons nem maus – foram zero. Ou seja, não houve lucro nem prejuízo, mas em contrapartida, o Clube teve o pior desempenho económico de toda a sua vida – recorde absoluto. Em abono da verdade, dever-se-há dizer, que se não fossem as aulas de português do já mencionado licenciado; não fosse o dinheiro despendido com o tratamento da sua gripe e com a aquisição da já referida bóia, a Colectividade teria um lucro, que deveria somar uns cinco contos. “Como se compreende, isto são tudo despesas extraordinárias. Caso contrário...” – dizia o GM Treinador Miguel. Caso contrário, teria, na mesma, sido o resultado mais baixo de toda a existência do velho Clube. Mas isto, o peso pesado dos States, GM Miguel Treinador, não dizia.
Mas dizia, poucos dias depois, que era fundamental contratar uma equipa de treinadores só de finais, constituída só por GMs (“Os States têm os melhores do mundo” – repetia ele vezes sem conta), que analisasse a situação em pormenor. Eu próprio vou colaborar com eles, porque tenho muitos conhecimentos sobre o assunto. De facto, tinha tido uma disciplina de finais de peão e Rei contra Rei, no curso que tirou nos Estados Unidos, se bem que se dissesse que não tinha aparecido em mais de metade das aulas. Ou então, era vingança do Director Financeiro do GXPC, como desforra pelos cabelos brancos ganhos nos últimos dois anos.
No entanto, logo no início do ano civil seguinte, o nosso caro GM Treinador lembrou-se de atribuir prémios de jogo, através duma matriz que só ele sabia trabalhar e que tinha aprendido nos States. Parece que a dita matriz só tinha uma linha e uma coluna e terá sido feita num bar do Bairro Alto, também a altas horas da noite. Mas o que interessa, é que no pequeno rectângulo, lá estava o nome do célebre psicólogo, que assim embolsou mais três meses de ordenado, como prova do seu sacrifício em prol do colectivo, que era a equipa – ele, que até quase morrera afogado.
O Conde da Pasteleira continuava ausente em Itália, tendo delegado os mais amplos poderes no seu Vice – Presidente, o Marquês de Ipiranga, só para não aturar o GM Treinador e aquilo a que ele chamava de apêndice psicológico do supra – mencionado.
O Marquês era quase a fotocópia psicológica do Conde. E dizemos quase, porque a única diferença se prendia com a reacção de cada um perante a diversidade. O segundo tinha um porte mais aristocrático e disfarçava as emoções, enquanto o primeiro reagia com um choradinho miúdo e nervoso, mal se via perante uma aflição, mesmo que de pequena monta. E foi assim, que no dia da chegada dos GMs auxiliares dos States, se plantou nas instalações do Clube, acompanhando-os à distância de três metros, sempre com um lenço branco na mão, pronto a eliminar qualquer lágrima furtiva que surgisse. A qualquer interpelação dos americanos ou do GM Treinador, começava sempre por responder: “Ai, ai, ai”. E como se depreende, limpava mais umas lágrimas.
Mas nem esta contrariedade, que valeu ao Vice – Presidente a alcunha do Marquês do Ai – Ai, foi suficiente para desviar o rumo do GM Treinador Miguel. O dito bem podia chorar, só por pensar no dinheiro que o Clube ia desembolsar, que o GM Treinador não se incomodava e os “grandes mestres auxiliares” muito menos.
A conclusão destes entendidos, após o estudo exaustivo de todas as partidas jogadas foi bem clara: a situação era má. O GM Miguel, enquanto parte integrante da equipa de trabalho, acrescentou: era má devido a erros do passado, quando em devido tempo, talvez há uns cinco anos, não se promoveu à remodelação da equipa e dos métodos de treinos então usados.
Quanto às medidas aconselhadas, lia-se no relatório dos americanos: importa aumentar o poder competitivo da equipa, sob pena dos restantes «negócios» caírem por terra. Ao que o Treinador acrescentou: impõe-se, por isso, a rápida modernização da equipa, através de modernos sistemas de auto – controlo interno, que em situações reais, in time, propiciem a correcção imediata dos desvios.
E foi assim que na época seguinte, a equipa dos quatro magníficos se viu reduzida a dois, já que os restantes dois tabuleiros foram ocupados pelo incontornável psicólogo e por um GM auxiliar. Desta vez, fruto da experiência anterior, o GM Miguel já não caiu no erro de comprar lições de aberturas e defesas para o novo recruta. Procedeu antes, à aquisição imediata de uma bóia, de cor diferente da do psicólogo, para que estes não se confundissem, caso caíssem à água, nos treinos de “Pulmão”.
Já o Marquês de Ipiranga não precisava de bóia, como se constatou quando o pobre homem, cansado de chorar e no auge duma crise de pessimismo, se quis matar atirando-se à água. Como, ao contrário dos outros, sabia nadar, não morreu.
Mas antes do início da época houve ainda uma cena digna de registo, quando o Treinador se dirigiu aos atletas (expressão que utilizava para designar os jogadores). Não vamos transcrever todo o discurso, pois seria maçador relatar três horas de frases ininteligíveis, repetitivas e sem graça. Mas, a título de exemplo, citemos algumas delas: “porque vocês, mesmo a jogarem ás cegas, conseguiriam ganhar todos os jogos”; “porque eu vou mais longe que o meu amigo Gates, mais alto que o meu compadre Ford, mais rápido que o meu colega Morita”; “porque a minha obra ficará para a posteridade e eu serei sempre conhecido pelo Treinador Uma Frase, teoria de treino que ajudei a criar e que desenvolvi”.•
Os desgraçados dos jogadores bem teimaram, apesar da sua inferioridade numérica: substituíram as peças dos tabuleiros, deram montes de simultâneas ás cegas, leram todos os manuais de aberturas existentes lá no clube até adormecerem de cabeça nos tabuleiros, dormiam nas suas casas com o Pachman a fazer de almofada e suaram como nunca; mas nada! Aqueles dois pesos mortos (é bom que se diga, que em conjunto, somavam 200 quilos) não permitiam qualquer veleidade. Ainda por cima com o minhocas do GM auxiliar, que não parava de escrever e dar instruções para o psicólogo. Este, já eles conseguiam aturar, desde que usassem os célebres tampões do ano anterior. Agora aquele chato, sempre a escrever no seu célebre bloco de apontamentos (mais tarde, alguém copiou este método) e a ditar instruções para o outro, é que era impossível de suportar, por muito que não ouvissem nem compreendessem o que dizia.
Mas vingaram-se, ah isso é que se vingaram! Antes de cada Jornada, nos treinos do Tejo, viravam o barco e... todos ao banho. O que salvava os dois americanos eram as bóias, por sinal de boa qualidade. Mas os jogadores ainda não estavam satisfeitos. Por isso, na última jornada da temporada, e por certo sem querer, o Zé do 1º tabuleiro, glória máxima do desporto nacional, muitas vezes convocado para as Olimpíadas e já farto do psicólogo, enfiou-lhe com uma Torre Stauton N.º8 na cabeça, que o deixou zonzo.
Nesse ano, o GXPC ficou exactamente em último lugar, tendo baixado de divisão.
Foi então que tudo se precipitou. O pobre do psicólogo, que nunca se tinha curado da pancada na cabeça, apresentou o pedido de demissão e rumou de imediato aos Estados Unidos, onde iniciou tratamento psiquiátrico rigoroso. O treinador auxiliar, na sequência duma grave pneumonia, foi internado no Hospital de Santa Maria onde percorreu todas as especialidades médicas. De facto, veio-se a descobrir que era mulher e estava grávida, que tinha uma intoxicação provocada por um peixe contaminado que engoliu num dos seus muitos mergulhos e muitas outras doenças, que não importa aqui relatar. Ah, falta dizer que acabou em Psiquiatria, tendo sido matéria de estudo em muitos Congressos, dada a estranha circunstância de, a partir dessa altura, trocar somas com subtracções e divisões com multiplicações, e ter inventado uma nova operação algébrica, que consistia em calcular uma potência em que o expoente se elevava à base e o resultado dava sempre zero. É possível que esta parte esteja mal explicada, dada a dificuldade do cálculo e a política de desinformação que os alunos de Bio estatística daquele hospital escolar levaram a cabo, zangados por terem de aprender mais uma fórmula. Mas este americano, apesar de tudo e mesmo sem ter conseguido demonstrar a sua teoria, teve um gesto de extremo carinho: deu um nome português à sua descoberta – Ribeira do Sado. Anos mais tarde, pessoas mais avisadas, até fizeram uma música sobre o dito curso de água, certamente em homenagem ao ilustre GM treinador auxiliar (pensamos nós).•
Mas os problemas não se ficaram por aqui. Todos os jogadores se demitiram, transferindo-se para o Clube rival, o que levou o GM Miguel a pensar entrar em Torneios mesmo sem jogadores. Perdeu na secretaria, porque a Federação Portuguesa de Xadrez considerou que isso era ilegal.
Cabelos desgrenhados, mais baixo uns 10 centímetros, ele que pouco mais media que um metro e meio, o Marquês de Ipiranga deixou de chorar e foi-se ao Treinador com unhas e dentes (literalmente falando), tendo este baixado ao hospital e, posteriormente, participado judicialmente contra o agressor. O processo ainda andou nos Tribunais, mas foi arquivado, porque atendendo à altura do Marquês, este foi considerado menor. Para o efeito, até juntou uma factura em seu nome, de compra de roupa no Corte Inglês Infantil.
Perante estes factos, o Conde, que já estava totalmente curado da sua gastroenterite, regressou de Itália para pôr ordem na casa. Com muita pena sua, mas para alívio dos seus intestinos, demitiu o Treinador, não sem lhe dar uma choruda indemnização, que atirou o Clube para uma quase falência, salva no último instante pelo capitalista e benemérito Senhor Sá, pai do ilustre GM Miguel.
Resta acrescentar, para concluir a história, que este último rumou a um pequeno país de África (daqueles que muito dificilmente se localizam no mapa), onde teve oportunidade de ensaiar, de novo, as suas teorias de psicologia no xadrez (ou será xadrez na psicologia?) ao criar e administrar uma fábrica de descascar bananas. A última notícia sobre si que chegou a Portugal, dava-o como perdido na selva, na sequência duma fuga a que foi obrigado, quando teve a ideia de contratar um psicólogo para convencer os macacos a não comerem aqueles frutos directamente das árvores.»
NOTA: Pensem bem nesta história, todos aqueles que pensam contratar um Treinador para Xadrez.


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