O Treinador moderno em plena actuação xadrezística

Como prometi falar-vos sobre o tema “Treinadores” fiz algumas pesquisas na Net e lá encontrei este “naco literário” sobre treinadores que vou partilhar convosco.•

1ª Parte

«Dom Miguel Roriz de Vasconcellos e Sá era um jovem GM, cujo currículo era ainda enriquecido por um curso de Treinador, obtido nos States, na academia de Xadrez José Raul Capablanca y Graupera como ele próprio gostava de frisar. Nada mais. Dito de outra forma, o GM Miguel tinha chegado há pouco dos Estados Unidos, onde estourou uma grossa fatia da fortuna do seu pai, aguardando agora pela inscrição num Clube, compatível com o seu curso, e apenas com este, já que não possuía grande experiência como jogador.

Mas quem conhecesse bem este jovem, saberia que isso não era dificuldade de monta. Cunhas, pedidos e afins eram a sua especialidade, ou melhor, a grande arma do seu pai, da qual já tinha abusado vezes sem conta, pois caso contrário, nem mesmo o seu curso teria chegado ao fim, apesar de ter sido tirado numa Academia de Xadrez privada, de grande prestígio no país.

Foi assim, que passado apenas um mês, entrou pela porta grande do GXPC, na qualidade de Treinador único e exclusivo. “Uma grande chatice”, diria ele aos amigos, uma vez que não pôde descansar o suficiente do trabalho que teve nos States para tirar o Curso de Treinador. ”Mas, como insistiram muito e não queria deixar mal o meu pai, que é amigo dos donos do Clube, tive que aceitar este pesado encargo” – justificava – se o GM.•

De facto, o pai tinha actuado tão rápido, que o próprio filho teve uma séria discussão com ele, argumentando que um GM / Treinador dos States (era sempre assim que ele se referia aos Estados Unidos) não deveria ser tratado dessa forma

- Não penses que me podem começar a tratar desta forma. Nunca o admitirei, ou não seja eu um GM / Treinador pelos States! Dizia ele.

- Então é bom que comeces a justificar o dinheiro que eu gastei contigo – rematava o pai.•

De facto, o Senhor Sá tinha gasto para cima de 6.000 contos com o filho, só nesta história do curso de Treinador. Mas como ele dizia, era o único filho que tinha e quanto mais levasse agora, menos arrecadava à sua morte. A verdade, é que este ilustre lisboeta, nada sabia de Xadrez e muito menos de cursos nos States, país aonde ele nunca fora, porque o trabalho (leia – se, o processo de amealhar dinheiro) não lho permitira.

Quando entrou no GXPC, tinha o Miguel 30 anos. É muito, é certo, mas o título de GM acrescido do curso de Treinador, segundo ele, é muito difícil por causa das inúmeras matérias a saber. Tão difícil e tão denso, que nem tinha tido tempo de abrir alguns dos muitos livros que o pai comprou, para que não lhe faltasse nada.

Quando chegou ao seu primeiro Clube, tinha à sua espera o Conde da Pasteleira, digníssimo Presidente do GXPC, Dom Fagundes Augusto e Silva do Centenário e da Esperança, Conde da Pasteleira, que já passava dos 60 anos, muitos dos quais dedicados ao seu Clube de sempre.
Era um homem sério, calmo e extremamente educado (ás vezes), que não acreditava muito em Treinadores de aviário, mas que também não tinha coragem de dizer não ao seu amigo Sá, grande benemérito do Clube que dirigia. Foi pois, dadas as circunstâncias, que do alto do seu metro e sessenta e cinco, impecavelmente vestido, que recebeu de braços abertos o seu novo Treinador, que logo lhe disse:

- Let’s go. Desculpe, é o hábito dos States. Agora, vamos mas é ao trabalho.

E foi assim, que passou a primeira noite a discutir com o Conde sobre o carro topo de gama que queria ver-lhe atribuído, o telemóvel (último modelo, claro) e as despesas de representação, pois, certamente, teria muitos contactos a estabelecer e nada como uma boa refeição para abrir portas. Não foi necessário falar sobre o vencimento, porque esse já tinha sido apalavrado entre o Conde e o Senhor Sá. No intervalo desta frutuosa reunião, ainda teve tempo para um almoço, de doze contos por cabeça, com o seu anfitrião. “Uma chatice, caro Conde. Até ao almoço trabalhamos. Mas os homens de trabalho são assim e tempo é dinheiro” – disse ele.

Coitado do pobre Conde, que por hábito comia sempre em casa um prato de peixe cozido ou grelhado, que a sua velha esposa, a Dª Epifémia, lhe preparava e que o mantinha magro e seco, como se fosse um jovem.

Mas não se pense que o GM e Treinador Miguel só tinha defeitos, porque isso é falso. Era jovem, tinha bonita figura e era hiper activo. Tinha ainda uma outra qualidade adquirida recentemente (nos States, claro está): era um exímio jogador de bowling.•

Acabada a pseudo reunião, o Conde ainda lhe propôs apresentar os vários jogadores do Clube, ao que ele respondeu:

- Another day, please. Desculpe, lá está outra vez o hábito dos States. Fica para outra altura. Sabe como é a vida – sempre a correr de um lado para outro, sempre em movimento. Imagine que vou daqui directo para uma ceia com o Presidente da Federação de Xadrez da Republica de São Tomé e Príncipe. Querem ter a minha opinião sobre o 1º Open de Xadrez que se vai realizar naquele País – sabe como é.

Na noite seguinte, o digníssimo Treinador apareceu pelas 22.30, tendo obrigado o velho Conde a uma espera prolongada, que este aguentava com uma boa dose de paciência. Desta vez, conseguiu apresentar os jogadores mais fortes, mas foi incapaz de o convencer a realizar de imediato uma reunião para debaterem os assuntos mais urgentes.

- Desculpe, caro Conde, e peço – lhe que não leve a mal, mas eu tenho uma maneira muito própria de lidar com estes assuntos. Uma das coisas fundamentais que se aprende nos States é a lidar com os jogadores. É tudo uma questão de psicologia – sempre a psicologia e, acima de tudo, a psicologia.

O resto da noite foi passada com assuntos que ele entendia serem da máxima importância. Primeiro começou por dar ordens no sentido de colocarem o nome dele, em letras garrafais na porta do seu gabinete de trabalho: GM pela Academia de Xadrez José Raul Capablanca y Graupera Miguel Roriz Vasconcelos e Sá. De seguida escolheu uma funcionária para o secretariar, tendo-lhe dado instruções rigorosas sobre a forma como se devia vestir (descobriu- se então, que era um acérrimo defensor das mini saias), como o devia anunciar, a que horas tomava café e, principalmente, a que horas não devia ser incomodado – que eram, de facto, muitas. Fez uma peixeirada enorme ao telefone, porque entendia que o seu topo de gama deveria estar disponível mais cedo, e exigiu uma casa de banho só para ele. Cansadíssimo, depois de todas estas tarefas, despediu-se com o seu ar imponente, tal qual um general (não daqueles que vão à guerra) em revista às tropas.

- E não se esqueçam, que sempre que eu entre ou saia, todos se devem levantar. Eu sei que não é hábito em Portugal, mas é importante que todos se adaptem a novos métodos. É uma questão de princípio.

O pobre Conde lá teve que aguentar mais um almoço (e a respectiva despesa), que pelo segundo dia consecutivo lhe provocou um violento desarranjo intestinal. Talvez por isso mesmo, no dia seguinte já não apareceu, deixando o Treinador por sua conta e risco.

Foi então que o GM Miguel convocou para uma reunião, que marcaria em definitivo a vida do Clube, todos os responsáveis: o Financeiro, o Comercial e o Desportivo. Trazia o discurso preparado, com o qual deu início aos trabalhos.

- Meus senhores, chegou a hora de começarmos a trabalhar! Estudei minuciosamente o Clube, tendo por base os mais modernos métodos de auditoria. Cheguei à conclusão que estamos muito mal e que, por isso, temos de dar uma grande volta à gestão desta casa. Como irão ver, será uma autêntica revolução, para a qual peço o vosso máximo empenho e colaboração. Os pormenores ser-vos-hão transmitidos por escrito. Por hoje, quero apenas falar-vos da estratégia em geral. E como eu costumo dizer já há muitos anos, o que conta é a psicologia. Temos que ser ambiciosos, querer sempre mais. Não nos podemos acomodar. Mudança – sempre mudança...•

E muito mais disse, ou melhor, muito mais falou, porque acrescentar, pouco acrescentou, já que não saiu do tema da psicologia, tendo até contado algumas histórias interessantes, como a do porteiro de um grande Clube da Capital que durante três meses desempenhou a contento as funções de Presidente, fruto apenas da forte dose de psicologia que lhe foi incutida. Terminou dizendo:»

Brevemente passarei a 2ª Parte




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