O Treinador moderno em plena actuação xadrezística

2ª Parte

«- E agora, vou dar-vos a oportunidade de falar. Um de cada vez e que fique já definido, que cada um de vocês só tem direito a uma frase. Depois, hei-de aconselhar-vos um livro sobre este método, que devem ler com a máxima atenção. Comecemos por você, caro Director Financeiro.

- Bem, posso dizer-lhe que a situação económica do Clube é óptima, porque tem vindo a acumular resultados positivos elevados ao longo dos últimos anos, sempre superiores a 10 contos, ao passo que os indicadores financeiros, como o da solvabilidade e o do fundo de maneio, são elogiados pela banca em geral, sendo uma garantia da nossa capacidade de negociação junto das respectivas instituições.

- Muito bem. Agradeço a sua curta intervenção e percebo o seu ponto de vista. Depois analisarei melhor os indicadores, mas desde já lhe digo que vou mudar muita coisa nesse campo. A mim, o que me importa é o EBITDA. Mas eu depois explico-lhe isto melhor, porque este é um indicador muito complicado. Agora o senhor Director Comercial, se faz o favor.

- A área comercial tem apostado em dois vectores principais com excelentes resultados, que se traduzem, quer no aumento das quotas, quer no crescimento do número de sócios, fruto de campanhas acertadas, que têm diversificado e promovido a nossa imagem, que aproveitam o bom desempenho da nossa equipa dos quatro magníficos e têm, igualmente, apoiado a nossa política de dinamização dum cada vez maior número de delegações espalhadas por todo o país, que por sua vez contribuem para o fomento da modalidade. Esta nossa iniciativa altruísta tem tido resultado fantástico se......

- Ei, espere aí. Você já vai na segunda frase. Desculpe, mas não pode ser. É uma questão de princípio.

- Mas, se me permite, o que vou dizer a seguir é de extrema importância!

- Não, não pode ser. Já lhe disse, que é uma questão de princípio. Quando ler o livro, vai perceber. Já nos fez perder tempo. Já disse três frases, quando era só uma. Time is money, nunca se esqueça deste princípio básico. Agora quero ouvir o Director Desportivo.

- Bem, Senhor GM Treinador, como sabe o GXPC tem um longo historial, fruto não só dos seus bons resultados desportivos, mas também pela ética como se comporta neste mundo extremamente competitivo que é o do Xadrez, facto que nos tem permitido granjear uma enorme popularidade e possibilitado resultados de prestígio, que com facilidade até se angariam fundos em qualquer ponto do país e do estrangeiro.

- Muito bem! Isto é,... muito mal! Muito mal, porque o nosso Clube nunca foi campeão de Portugal Sê-lo-emos sob a minha batuta, no máximo dentro de três anos.

E esta foi a grande revelação do GM Miguel, dita em tom decidido e suficientemente alto para que todos a ouvissem – declaração solene que já trazia preparada desde que soube que seria o novo Treinador da Colectividade.

Fez-se então um silêncio absoluto, que desfrutou com prazer e volúpia. Mas o silêncio manteve-se e, porque a sua reacção não sentiu o efeito desejado, quem acabou por se sentir baralhado e desconfortável foi ele próprio.

- Mas então você não diz nada? Acomoda-se?

- Desculpe Senhor GM Treinador. É que pensei que só podia dizer uma frase.

- Não, não. Desta vez pode falar, porque é na sequência duma pergunta minha.

- Ah, não sabia. A verdade, é que o mundo da competição é muito difícil e nós não temos as condições dos outros Clubes. Falta-nos jogadores de elite e maior competitividade interna. Ficamos, habitualmente, em segundo ou terceiro lugar, sendo inclusive o Clube com maior palmarés. Mas a nível internacional, apesar do nosso honroso esforço, quedamo-nos por lugares bem mais modestos e isso só nos Subes.

O Treinador fingiu estar a pensar maduramente no problema. Olhou para os seus subordinados, batendo com a caneta Mont Blanc, ao de leve, na secretária, num gesto há muito estudado, para concluir:•

- Pois eu repito-vos, que dentro de três anos seremos campeões do mundo! – e aguardou o efeito da frase.

Mais uma vez ninguém respondeu, pelo que foi obrigado a inquirir directamente:

- Então senhor Director Comercial, que tem a dizer?

- Pessoalmente acho difícil, mas se o senhor o diz! Podemos saber em que se baseia a sua previsão?

- Aí está, finalmente, uma pergunta pertinente. Claro que tenho todo o gosto em responder a essa pergunta. Farei até um bocado de escola sobre a matéria, para que, não apenas este Clube, mas todos os outros, reflictam e se reorganizem em função de novos métodos.

Mais uma vez aguardou o tempo suficiente para avaliar o efeito das suas palavras nos interlocutores de ocasião. É que o GM Treinador Miguel é daquelas pessoas que existem por si próprias, apenas voltadas para o seu umbigo. Tudo aquilo que o rodeia, apenas importa enquanto espectador atento do seu desempenho (alguns, teimam em classificar estes discursos como autênticos vómitos), que por si só vale, independentemente do julgamento de terceiros. Concluída a pausa, continuou:

- Tudo é uma questão psicológica. O que é necessário é saber gerir os recursos humanos. E estes existem apenas no mundo que os rodeia, não apenas o material, mas principalmente o mental, aquilo que nós, Grandes Mestres, queremos que eles vejam. Observem o caso dum pobre, que vive num barraco e a quem a Câmara dá um pequeno apartamento no local mais infecto que se possa imaginar. Como é que ele se sente? Feliz da vida! É psicologia – pura psicologia! E é isto que nós temos que incutir aos nossos jogadores. Fazê-los crer que são os melhores, que têm as melhores condições de treino e que se quiserem, até voam sobre os tabuleiros. O que lhes interessa não é a realidade, mas sim aquilo que pensam que ela é.

Mais uma pausa, fingindo estar exausto por expor tão difícil raciocínio, porque como ele costumava dizer, o verdadeiro trabalho e consequente cansaço, só existe naqueles capazes de definir estratégias e colocar a sua inteligência superior ao serviço dos outros. Posto o que, retomou o discurso.

- É por estas razões, que anuncio solenemente a contratação dum psicólogo para a equipa dos quatro magníficos, que a acompanhará dia e noite, se necessário for. Não um português, porque não acredito nas nossas escolas. Um dos States, porque eles estão anos-luz mais avançados do que nós. Por hoje é tudo. Vamos trabalhar.

Claro que ele saiu de imediato, fruto de uns assuntos urgentes que tinha de resolver com um banqueiro importante, que não podia mencionar, porque, dada a relevância da matéria, lhe tinha sido pedido segredo absoluto.

Também parece clara, a razão pela qual não podemos transcrever para estas páginas, os comentários que os três Directores trocaram, a sós, após a saída do GM Treinador Miguel. Mas para que não restem dúvidas sobre o tema abordado, apenas poderemos dizer, que de psicologia não tinha nada.

E assim foi: o GXPC, a mais prestigiada Colectividade do país, contratou um psicólogo dos States.

Findo o calendário competitivo desse ano, constatou-se que o Clube, apesar do extraordinário esforço do seu Treinador e do seu famoso psicólogo, se quedou pelo quinto lugar – a pior classificação dos últimos 12 anos. De imediato se procuraram explicações para o sucedido. Como era possível, que o GXPC, dirigido por um distinto GM Treinador, assessorado por um estrangeiro, ainda por cima dos States, ficasse apenas em quinto lugar?

Foi o que o GM Treinador Miguel procurou saber, depois de constituir uma Comissão, presidida por ele mesmo (quem melhor qualificado para o efeito?) para estudar os factos. Ponderados estes, emitidos uns vinte relatórios sobre o assunto, concluiu-se que a culpa era... dos jogadores. Verdade seja dita, que estes nunca se tinham habituado aos métodos do psicólogo e dos treinos que ele próprio ministrava, depois do auxiliar ter batido com a porta, ao constatar que o americano obrigava os desgraçados a lamberem todos os tabuleiros de competição até à exaustão e a comerem dois peões pretos ao pequeno almoço. Só nos treinos, claro, porque nas provas era proibido pelos regulamentos. Ah, também é bom que se diga, que em vez do habitual regime alimentar, à base de bife, leite e fruta, os obrigou a comer cachorros quentes e hamburgers, e a beberem coca – colas.

Do estudo também se concluiu, que a presença do psicólogo nos treinos não era suficiente, porque os jogadores portugueses tinham o defeito de rapidamente se esquecerem das instruções, voltando à realidade, quando se apanhavam longe do dito licenciado. E, naturalmente, que este distanciamento era mais prejudicial durante as provas. O Treinador ainda ensaiou atirar as culpas para os árbitros, mas faltavam-lhe meios de prova, como por exemplo, grandes penalidades mal assinaladas, entradas de carrinho, cotoveladas, etc..., como acontece no futebol. O motivo mais parecido que encontrou, foi quando um jogador adversário, em plena provae a jogar no 3º Tabuleiro (pertencendo-lhe a ele fazer o lance), caiu juntamente com a cadeira. Ele era capaz de jurar que tinha sido de propósito, mas a verdade é que o árbitro, nem sequer levantou a cadeira quanto mais o jogador, para assinalar o respectivo castigo máximo, perda por abandono. Lá se foi o argumento!

Também convém dizer que nesse ano o Clube reduziu drasticamente os seus lucros. Não porque as receitas tivessem diminuído, mas porque as despesas aumentaram assustadoramente. Tão assustadoramente, que quase dava o fanico ao velho Conde, que teve de se retirar para a sua quinta no Douro, para recuperar do abalo sofrido.»

Brevemente passarei à 3ª parte

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