O XADREZ E SEU REGULAMENTO

EXPLICAÇÃO DUM AMIGO

- O Xadrez, para além de significar jogo, também pode significar complicação ou até mesmo calabouço, sabias? Mas, como o teu caso é o regulamento, avancemos.

-Vou decompor a palavra regulamento por sílabas, (analisar) para que vejas melhor, presta lá atenção: “re +gula +mento” dá um trinómio, percebeste? Quando terminar as análises pela via da matemática “a matemática é uma ciência exacta” passarei ao conteúdo que é uma matéria muito mais simples, entendeste?

- Uma das definições de “re” corresponde à parte do navio que vai da popa ao mastro onde normalmente é aplicada a força de impulsão no dito. Vês o barco a deslocar-se? Muito bem! Não sabes em que direcção mas isso lá irás ver com o tempo, tem calma e não te enerves.

- Quando somamos “re” com “gula”, excesso no comer e no beber, adivinhas como navega o dito barco? Óptimo meu velho amigo! Vejo com satisfação que a substância cinzenta dos teus hemisférios cerebrais (ainda serão dois?) mantêm-se activa apesar de nos últimos tempos constar que abandonaste a “Francesa” por causa de c5! Calma, tira as mãos do tabuleiro e vê o que acontece quando tento somar o binómio “re” + “gula” = regula “esposa do régulo” (leia-se chefe de tribo bárbara). Exactamente meu amigo, este resultado conduz-nos para já a uma grande barbaridade, agravada com os excessos contidos na “gula”! Avancemos agora na soma do trinómio, “re +gula +mento”. Ora como “mento” significa queixo, mais por mais dá mais e menos por menos dá mais, se desenvolvermos a equação desta forma o “mento” (leia-se queixo) terá de ser elevado ao quadrado por causa da raiz! Percebeste? Isto é, entendeste o desenvolvimento?

Mas é claro que nesta altura eu já não entendia nada e ver muito menos! Os papéis amontoavam-se por toda a mesa e tapavam tudo, incluindo o meu tabuleirinho de bolso onde tinha começado a ensaiar a variante do avanço na Francesa, sem conseguir passar do c5; mas o pior de tudo era o olhar inquieto que a Dª Preciosa do Café nos dirigia a partir do balcão donde fazia regularmente as suas “investigações”. Convém aqui referenciar que aquela Sr.ª era viúva pela segunda vez; no primeiro casamento dum xadrezista de renome Nacional e no segundo dum matemático das quânticas. Nesta altura e depois do cruzamento de olhares, sorri para disfarçar e pedi-lhe uma bifana daquelas que levam cebola. O Dr. Zerpelim Aristóteles, assim se chama o meu amigo, continuava às voltas com o trinómio mas a complicação surgida com o “mento”, (leia-se queixo) tinha-o absorvido completamente e, quando ia entrar na quarta hora seguida de cálculos e mais cálculos, já com o papel esgotado e sem nada o fazer prever, lançou um grito de total entusiasmo – Eureka!!!

O grito, arrancado do fundo dos pulmões a toda a força e soando como uma “oitava acima do Louis Armstrong”, aconteceu precisamente quando a Sr.ª Preciosa de bandeja na mão, andar pretensamente gracioso e com um sorriso cheio de cumplicidade, fazia a aproximação à mesa e aí sim, foi o caos. A Sr.ª assustou-se com “Eureka” (talvez pensasse que era com ela) e na desconjunção dos movimentos, a bandeja saiu-lhe disparada das mãos indo atingir o Dr. Aristóteles em pleno queixo sendo que a bifana e precisamente quando eu limpava os óculos, voou como papagaio da Indonésia espalmando-se nos meus olhos arregalados pela surpresa, juntamente com alguns restos de cebola e molho que desgraçadamente vinha carregado de picante, fornecido pelo homem da Índia; mas o pior ainda foi a Sr.ª que em completo desequilíbrio procurou apoiar-se numa cadeira “não para se sentar” e ambas seguiram viagem, rolando até à porta de acesso ao WC dos homens, onde finalmente pararam em posição que me recuso relatar aqui. Apenas se pode dizer que as roupas interiores da viúva eram de boa qualidade.

Acabámos os três por dar entrada nas urgências do Hospital de Stª Maria em estado lastimoso e tivemos ainda de suportar um extenuante “interrogatório” feito pelos médicos antes de sermos atendidos. Diziam os respeitáveis clínicos que para procederem em conformidade tinham de saber pormenorizadamente a composição da bifana ao que a Dª Preciosa respondeu, fornecendo mesmo a morada do “homem da Índia”.
Do “acidente” resultou uma fractura no maxilar inferior do Dr. Zerpelim impossibilitando-o de falar durante um mês, sobretudo de regulamentos. Eu fiquei proibido de tocar em bifanas especialmente nas da Dª Preciosa que por sua vez foi obrigada pelos Clínicos a ler toda a obra do filósofo.
Mais tarde veio a descobrir-se que as bifanas consumidas nas noites de “vela” naquele Hospital tinham passado a vir do Café da Dª Preciosa e esta tinha passado a usar calças em substituição das habituais saias.

Não se pense que o Dr. das matemáticas era homem de desistir ao primeiro round nada disso! Pelo contrário, as dificuldades que encontrou no primeiro contacto com o regulamento estimularam-no ainda mais e foi por isso que me informou da conclusão a que tinha chegado para resolver o enigmático “regulamento” e assim ficou marcada nova reunião, mas desta vez em sua casa, dado que o Café da Dª Preciosa tinha sofrido algumas alterações por esta ter casado pela terceira vez, com um Clínico de Stª Maria, que mandou afixar em letras garrafais no interior do Café e logo à entrada, o seguinte cartaz: «É expressamente proibida a ocupação das mesas a estudantes de qualquer matéria».

Chegado o dia da reunião apresentei-me em casa do Dr. Aristóteles e depois de me instalar o melhor possível para aguentar mais uma previsível descrição de como “resolver” o imbróglio do regulamento, prestei-lhe toda a atenção, não sem primeiro ter tirado do bolso o meu inseparável tabuleirinho de bolso. O Dr., sentado na minha frente, lançou-me um olhar onde se podia ler uma mistura de indulgência com alguma desconfiança, e lá começou com as suas explicações.

- Caro amigo! Vou embarcar como Comandante no barco que o meu Pai me deixou como herança e prometo que no regresso te entregarei tudo sobre o malfadado regulamento.

- E, para que não hajam problemas na viagem, escolhi eu próprio a tripulação e dei especial atenção ao homem do leme que é neste momento o meu melhor marinheiro. Homem rijo e duro como aço, que conhece todo o tipo de manobras mesmo nas mais desesperadas situações; tem ainda no seu curriculum, cinco voltas de circunvalação ao mundo sem nunca “meter água”.

Fiquei finalmente livre para continuar os estudos sobre a evolução do c5 na variante do avanço da Francesa, onde residiam ainda as minhas grandes dificuldades e o tempo lá se ia passando até que um dia toca o telefone e para grande surpresa minha era o Dr. Zerpelim! Já tinha regressado e fazia questão de me relatar de viva voz as conclusões a que tinha chegado sobre o regulamento. Não me fiz esperado e rapidamente fui ao seu encontro seguindo exactamente a direcção que me deu. Chegado ao local, fixei bem o olhar no dito e pensei: lá estou outra vez a ver os “papagaios da Indonésia” porra! O Dr. enganou-se! Isto é uma prisão caraças! Mas infelizmente para ele não me tinha enganado; o Dr. Zerpelim estava mesmo preso.

Lá entrei na prisão e acompanhado por um Guarda, fui levado à presença do Dr. Aristóteles que começou então a relatar-me a sua odisseia.

- Ai meu bom amigo! Tinha tudo pronto sobre o regulamento para te entregar mas no regresso a Portugal e quando nada o fazia prever, à entrada da Baía do Inferno (pouco conhecida no País) fui fustigado por ventos ciclónicos, ondas de 7 metros a passarem por cima do meu grande marujo, lembras-te dele? Era o homem da minha confiança! O que tinha dado cinco voltas ao mundo sem nunca ter metido água! E agora, de dentes rilhados e semblante carregado, no meio daquela violenta tempestade, cantava assim! “daqui não saio, daqui ninguém me tira!” Estaria ele mareado? (leia-se marado) Gritei-lhe da Ponte onde me encontrava agarrado a metade do “sextante” (a outra metade já tinha voado borda fora) e com a minha voz de comando mais forte, “como nesta altura eu o olhasse com ar incrédulo” disse-me – Nada do que estás a pensar meu amigo. Medo! Foi coisa que nunca tive, disso podes ficar certo.

“ Baixei os olhos para o meu querido tabuleirinho e nada disse”

- Como te ia a dizer, gritei!!! Vira tudo a estibordo meu valente! Mas o infeliz já nada ouvia tão embevecido se encontrava com a sua cantilena. Vesti então o colete salva – vidas e sempre agarrado às cordas lá consegui chegar junto do desgraçado Timoneiro e o que vi deixou-me desolado meu amigo!

- O Zé Damarra, assim se chamava o grande Marujo, estava amarrado de pés e mãos ao leme e nada podia fazer para alterar o rumo do barco. Foi então que percebi a razão daquela cantiga e num ímpeto não contido de solidariedade juntei-me a ele fazendo segunda voz, naquela cantiga que nunca esquecerei:
“daqui não saio, daqui ninguém me tira!”

- Ah meu amigo, mas depois é que foi! O barco, completamente desgovernado, batido fortemente pelo vento e por ondas que já ultrapassavam os 8 metros, apontou a proa à muralha de defesa que circundava a Baía do Inferno (pouco conhecida dos portugueses) e, sem apelo nem agravo, como se de manteiga se tratasse, cortou a barreira, e só parou quando encontrou pela frente um Hotel; mas quando parecia que tudo finalmente tinha terminado, aconteceu o imponderável.

- É que naquele Hotel decorria um dos mais fortes torneios de Xadrez, jamais realizado em Portugal!!!
E? Perguntei ansioso e sem querer interromper o Dr.


- Todos os jogadores em campo (leia-se no salão) desataram num berreiro infernal reclamando vitória por falta de condições (entenda-se muito barulho) mas na verdade, o barulho do embate do barco no Hotel até já tinha passado e este repousava agora serenamente com a parte da proa dentro do salão e o restante do lado de fora.

- Mas o que mais irritou os jogadores foi o facto de na consequência da colisão ter rebentado um saco de batatas - restos da viagem - que se encontrava no convés completamente livre e à deriva e todos aqueles tubérculos terem invadido a sala do jogo.

- Há ainda que considerar como factor agravante o facto incognoscível de uma das batatas depois de ter batido numa das paredes da sala, ter ganho efeito “qual bola de bilhar às três tabelas” e ido alojar-se em plena boca do Director de prova que na altura estava aberta, como “ganso patolas a arejar”, por causa do incompreensível acidente.

- Dado que os jogadores insistiam numa explicação para o sucedido, isto para além de continuarem a exigir a vitória e o Director de prova se encontrar impossibilitado de falar pelos motivos atrás referidos, pedi a intervenção do Gerente do Hotel que de saca rolhas em punho lá conseguiu extrair o famigerado tubérculo da boca do infeliz.

- Depois de respirar bem fundo umas três vezes o Director de prova lá começou a falar para aquela audiência ainda surpreendida com todos os acontecimentos começando por enaltecer o espírito desportivo de todos, passando logo de seguida para o regulamento da prova, evocando todos os artigos que lá não estavam e onde tudo tinha sido previsto até exactamente a atribuição de vitória para todos, incluindo até calcule-se, a oferta de todo aquele batatal!

- E assim meu caro amigo tudo terminou em bem para os Xadrezistas que até levaram batatas para casa que lhes deveriam ter dado para um mês se não abusassem.

- Para mim é que foi pior; a capitania levantou um inquérito de averiguações onde se veio a descobriu que o saco das batatas tinha sido retirado do Paiol pelo Zé Damarra numa visita furtiva que fez àquele local. Neste inquérito também se descobriu que foi o conferente de bordo quem o amarrou à roda do leme, por ele ter subtraído o saco que o referido conferente já tinha assumido como seu, pois tratava-se de economias feitas com muito sacrifício durante toda a viagem.

- E agora meu amigo encontro-me em prisão preventiva aguardando julgamento por invasão de propriedade privada à noite, mas e segundo o Juiz, se fosse de dia, não era considerado crime. Quanto à promessa que te fiz não posso cumpri-la dado que o dossier me caiu à água, no Mar da Palha, onde jaz algures, esperando ser recuperado.

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