Um Arbitro em Apuros!

Na magistral partida entre “Pepe rápido" vs "Fulminante" e depois de uma série de “crimes” praticados por ambos ao longo da electrizante partida, jogada sempre no “fio da navalha”, atingiu-se um final no 89º lance de Rei e peão para ambos os lados. As brancas tinham o Rei em b8 e um peão em g4; as Pretas tinham o Rei em b1 e um peão em b6.

Dada a irreverência dos contendores, o silêncio era tal que os mais surdos apenas ouviam o tic tac do relógio “entremeado” com o rugido intestinal do Fulminante (sem gases entenda-se) não dando conta de uma melga, bem gorda por sinal, à procura de poiso. O famigerado insecto espreitava por cima das já descapotáveis cabeças dos dois jogadores, escolhendo a melhor “pista” para aterrar.

O batimento insistente das asas do já estafado insecto, faziam um zumbido que lembrava o esforço do “Manel dos Carapaus” quando insistia em dar uma 8ª acima, depois de emborcadas duas garrafas de sete e meio dum tinto que a Mãe lhe mandava lá da quinta.

O Árbitro, “Pescoço de Avestruz em fuga”, visão de longo alcance onde nada passava em claro, até mesmo quando alguém ia ao WC, naquele momento parecia “Avestruz de cabeça na areia” (digo em cima do tabuleiro) à já bastante tempo, numa atitude de observação a rigor.

Eram as pretas a jogar (Fulminante conduzia as pretas) e, no preciso momento em que joga b5 foi o caos! Aquele silêncio sepulcral foi rasgado em uníssono e sem qualquer harmonia, espalhando o pânico na Sala.

A melga aterrou cansadíssima e cheia de sede na careca do “Fulminante” no preciso momento em que este jogou b5 e zás; daquela garganta saiu um grito – àààààààà filha da pu… ! Seguiu-se uma valente estalada (dada por si) na dita mas o mais grave de tudo e que gerou um grande sururu, foi o árbitro exactamente no mesmo momento também ter gritado:

- Lance irregular! Os peões não andam para trás!

O “Fulminante”, de olhos arregalados como dois tomates maduros e rilhando os dentes como Búfalo ruminando, disse:

- Lance irregular o cara..! Esta filha da puta não pica mais ninguém.
- Calma ai! Refiro-me ao lance! Você não pode jogar o peão para ali! Os peões não “andam” para trás, percebeu?
- Ora essa! Então você não vê que eu jogo para baixo! Tenho o Rei em b1 mas jogo de pretas!

E foi quando se fez luz na cabeça do árbitro, “pescoço de avestruz em fuga” (agora de cabeça na areia) ao ver que na verdade era mesmo assim. Lembrava-se finalmente que Pepe Rápido e Fulminante, sempre que jogavam, cruzavam os Reis em tal velocidade que acabavam sempre a jogar com os ditos ao contrário.

Meus amigos o pior de tudo até nem foi o que acabaram de ler mas o que aconteceu no momento crítico atrás referido.

A Dona Gertrudes esposa do Fulminante tinha acompanhado o marido e levara consigo o seu inseparável gato siamês, um felino de muita estimação que raramente saia de casa, demasiadamente gordo, felpudo e unhas cortadas para não arranhar. A senhora, depois de uma inspecção bem feita à sala, acomodou-se discretamente num canto, sacando da sua revista, a tal, dando inicio à leitura.

O bichanito com todo aquele silêncio ronronava na paz do senhor sacando uma bela soneca no colo fofinho da dona, indiferente a tudo o que o rodeava. Acordado sem pré-aviso, o siamês dá um salto de uns três metros e cai no meio da sala, de chão envidraçado, escorregando em tal velocidade que até Ferary 2004 teria vergonha, acabando por embater num candeeiro de pé alto que estava junto à porta de saída e, com um estridente miaaaaau, saiu disparado porta fora qual foguete de São João, com a Dª Gertrudes na sua peugada, gritando:

- Bzzz, Bzzz, Bzzz, onde estás bichaninho, vem à dona, anda lá bichanito! Não fujas!

Mas é claro que o raio do gato levava fogo no rabo e ninguém mais o viu. A Dª Gertrudes acabou por regressar à sala onde o marido estava já numa grande discussão com o árbitro por causa do preço que este tinha de pagar pelo candeeiro que o gato partiu (…) sai de fininho e não sei como tudo acabou mas há uma coisa que fica aqui bem clara. Torneios com o Pepe, o Fulminante e o Pescoço de Avestruz para mim acabaram. Irra!

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